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Myth

A fumaça de dois mundos

2 min de leitura

African folktale illustration – A fumaça de dois mundos

Há muito tempo, quando a relva era alta e os rios ainda sussurravam os nomes daqueles que os cruzavam, vivia uma mulher que conhecia os segredos da terra. Sua cabana era pequena, mas sua sabedoria era ampla. Em seu saco de calabash e couro ela carregava raízes, ervas e pós, cada um segurando uma voz dos antepassados.

Um dia, as pessoas disseram que ela tinha dado veneno a outro. Os homens da lei vieram e levaram-na. Levaram-na perante um magistrado, um homem que não entendia os caminhos da terra. Diante dele puseram as suas ervas num tapete tecido. O ar cheirava a terra seca, de chuva há muito tempo, de segredos.

Então os curandeiros foram chamados. Vieram um por um, velhos e jovens, homens e mulheres. Cada um se inclinou para tocar as ervas. Cada um falava sem medo.

“Este cura o estômago.”
“Aquele tira veneno.”
“Este arrefece a picada de uma vespa.”

Suas vozes se levantaram e caíram como o bater dos tambores, firmes e fortes. Mas entre as plantas curativas havia outras de mistério. Um era para mastigar ao cruzar um rio, para impedir que os espíritos da água mordessem. Outro era para ganhar favor perante um juiz, para que a verdade pudesse encontrar ouvidos abertos.

O magistrado perguntou: “Como se usa?”

E um velho, sua barba branca como espuma de rio, disse: “Você a queima nas brasas. Sentas-te acima da fumaça, coberta de manto, até encher a pele e o fôlego. Quando estiveres diante do juiz, guarda um pedaço na tua boca, e o espírito da raiz falará por ti.”

Ninguém se riu. Ninguém duvidava. Para eles, a medicina e o espírito andavam de mãos dadas. A doença do corpo e a doença do coração eram um só.

O homem branco só via superstição. A mulher viu a dança da vida.

E quando o julgamento terminou, ela voltou para sua cabana. Lá acendeu seu fogo, aterrando suas raízes, e cantou suavemente aos antepassados.

Fora, o vento passou sobre o veld, carregando consigo o cheiro de ervas e o sussurro de sabedoria que nunca morre.

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